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Ações da Intel despencam 29% e eliminam US$ 12 bi do investimento governamental

Ações da Intel despencaram 29% em um único pregão na quinta-feira, 29 de outubro de 2026, apagando cerca de US$ 11,3 bilhões de valor da participação acionária que o Departamento de Comércio dos Estados Unidos detém na empresa de semicondutores — um reflexo direto do acordo de agosto de 2025, no qual o governo transformou subsídios da Lei CHIPS em capital próprio, comprando 433 milhões de ações a US$ 20,47 cada. O preço de fechamento da quarta-feira ficou em US$ 92,07; na sexta-feira, 30 de outubro, as ações operavam em torno de US$ 65,91, uma queda de 28,41% em relação ao fechamento anterior.

Os números do terceiro trimestre de 2026, divulgados na quinta-feira, apresentaram uma história de dois lados que os investidores interpretaram como motivo de preocupação. A receita bruta de US$ 16,5 bilhões superou expectativas e cresceu 21% em relação ao mesmo período de 2025, com margem bruta não-GAAP de 44,1% — cerca de 200 pontos-base acima da orientação da própria empresa. A earnings per share ajustada foi de US$ 0,52, contra US$ 0,40 esperado pelo mercado. O caixa operacional foi de US$ 5,91 bilhões.

Mas o guia para o quarto trimestre foi o que realmente desencadeou a venda. A Intel projetou receita entre US$ 15 bilhões e US$ 16 bilhões para o trimestre seguinte, abaixo da estimativa consolidada de Wall Street de US$ 17 bilhões. O lucro por ação foi estimado em US$ 0,25 — contra US$ 0,43 esperado — e a margem bruta caiu para 38%, uma queda drástica em relação aos 44,1% do trimestre anterior. O CFO Dave Zinsner explicou que a queda reflete tanto a persistência da fraqueza no mercado de PC quanto os custos crescentes associados às crises de suprimento global de memória.

O detalhe mais intrigante — e o que melhor captura o paradoxo da Intel em 2026 — é que a própria febre de inteligência artificial que está alimentando o crescimento mais rápido da empresa em 15 anos no segmento de data center também está sufocando o seu negócio de PCs. A receita do Data Center and AI group saltou 78% interanual para US$ 7,3 bilhões, com crescimento amplo entre clientes hyperscale, corporativo e NeoCloud. A receita com silício sob medida cresceu mais de 50% sequencialmente e dobrou em relação ao ano anterior.

Por outro lado, o Client Computing and Physical AI Group — que fabrica os chips para os computadores pessoais — teve receita de US$ 8,1 bilhões, uma queda de 5% em relação ao ano anterior e abaixo das expectativas do mercado. O CEO Lip-Bu Tan foi direto durante a chamada de resultados: "Estou desapontado por não conseguirmos atender à forte demanda dos clientes neste trimestre. Enfrentamos desafios de curto prazo, incluindo escassez de suprimentos de fabricação, a crise sem precedentes de memória e a consequente fraqueza na demanda de PCs."

A cadeia de suprimentos de memória é o ponto central dessa contradição. Empresas como Samsung, SK Hynix e Micron estão vendendo chips de memória a preços cada vez mais altos, alimentados pela demanda esgotante dos data centers de IA. Isso gera lucros recordes para os fabricantes de memória — Samsung e SK Hynix anunciaram lucros trimestrais recordes nas últimas semanas — mas pressiona os custos para a Intel, que compra esses chips e os integra em produtos finais. O resultado: laptops e desktops ficam mais caros, os consumidores adiam compras, os montadores de PCs reduzem embarques e, em última instância, a Intel vende menos processadores para PCs.

A projeção da Intel para o mercado de PCs é sombria. A empresa espera que o volume total de unidades de PCs no mercado caia cerca de 12% em 2026, com o segundo semestre tendo declínios acima de 20%. O declínio deve se estender até o primeiro semestre de 2027, com uma queda projetada de 10% para o ano inteiro de 2027. "Acho que em 2027 isso vai se tornar um problema muito severo para todos nós", disse Tan, acrescentando que "não estamos sozinhos — todo o mercado está sendo impactado."

A inteligência artificial, que deveria ser a salvação da Intel, está se comportando como uma faca de dois gumes. O segmento de data center cresce a uma taxa que a empresa não via há 15 anos. Mas a escassez de memória que esse mesmo crescimento gera está estrangulando a outra metade do negócio da empresa. E o foundry, que deveria ser a próxima grande virada, ainda opera com prejuízo operacional — US$ 2,1 bilhões no segundo trimestre fiscal de 2026 — embora tenha crescido 58% em receita para US$ 6,7 bilhões no terceiro trimestre.

O Departamento de Comércio dos EUA, que detém 433,3 milhões de ações ordinárias e warrants sobre 240,5 milhões de ações adicionais, vê o valor da sua participação cair de aproximadamente US$ 39,9 bilhões para US$ 28,56 bilhões em um único dia de negociação. Isso representa uma perda contábil de US$ 11,3 bilhões. O governo ainda está US$ 19,66 bilhões acima do investimento inicial de US$ 8,9 bilhões — o que equivale a 3,2 vezes o custo original — mas nenhuma venda dessas ações foi anunciada, o que significa que a perda ainda é "de papel" e se materializa plenamente apenas se o governo decidir desfazer do investimento.

A situação revela algo que poucos analistas estavam dispostos a dizer em voz alta: a aposta da Intel na transformação de foundry, no investimento maciço de US$ 20 bilhões para 2026 e na dependência de subsídios governamentais para sustentar o ritmo, coloca a empresa em uma posição de fragilidade que o mercado de ações finalmente decidiu precificar. A queda de 29% não é apenas sobre números do trimestre — é sobre a percepção de que a reconstrução da Intel pode estar mais longe do que os investidores esperavam.

Fontes: TechCrunch, CNBC, Business Insider

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