O reactor que deveria mostrar a volta da energia nuclear tem apenas problemas
Em março de 2026, a Comissão de Regulamentação Nuclear dos Estados Unidos (NRC) emitiu a primeira aprovação de construção de um reactor comercial em quase uma década. O destino: Kemmerer, no Wyoming. A empresa: TerraPower, a mais famosa startup nuclear do mundo, cofundada e financiada por Bill Gates. O sonho era simples, quase poético — transformar um antigo sitio de uma central carvão em fechamento numa central nuclear avançada de zero emissões, e usar isso como prova de conceito para uma nova era energética.
Seis meses depois, a realidade é outra. A TerraPower está a perder o seu principal parceiro de construção (a Bechtel), ainda depende de um combustível que não existe em escala comercial, e vê a promessa de um reactor de última geração esbarrar nos mesmos problemas que travam a indústria nuclear há décadas: custos, atrasos e complexidade de execução.
A quebra com a Bechtel
Em setembro de 2026, a engenharia e construção Bechtel anunciou que já não teria qualquer envolvimento no projecto Natrium da TerraPower. A ruptura foi revelada através de um aviso WARN (Worker Adjustment and Retraining Notification) filed na Virgínia, que listou até 200 posições em risco devido à decisão de "avançar separadamente".
A Bechtel trabalhou com a TerraPower desde os primeiros estágios do projecto — incluindo a obtenção da licença de construção da NRC, a conclusão do edifício da instalação de teste e enchimento de sódio, e os trabalhos fundamentais para a Unidade 1 de Kemmerer. Mas a empresa não conseguiu chegar a um acordo sobre a próxima fase do projecto, e agora vai reduzir a sua participação.
A TerraPower tentou minimizar o impacto. "A construção em Kemmerer manterá o calendário actual com equipas subcontratadas excepcionais", disse a empresa num comunicado. Mas a verdade é que o contrato de EPC (Engineering, Procurement and Construction) será novamente licitado — o que significa novos atrasos, novos custos, e mais incerteza sobre um projecto que já demora anos para avançar.
Curiosamente, em agosto de 2026, a TerraPower havia anunciado que a Hyundai Engineering & Construction seria o seu novo parceiro de EPC para até oito reactores Natrium — mas isso se aplica a projectos futuros, não ao reactor de demonstração em Wyoming, que continua sem um contratado de construção estabelecido.
O problema do combustível HALEU
Mesmo que a TerraPower resolva os problemas de construção, há outro obstáculo quase intransponível: o combustível. O reactor Natrium precisa de urânio de alta fissão (HALEU), enriquecido entre 5% e 20% em urânio-235 — um material que, até ao momento, não existe em produção comercial em qualquer lugar do mundo.
A Rússia é actualmente a única fonte comercial de HALEU, e a invasão da Ucrânia complicou drasticamente qualquer plano de importação. A TerraPower originalmente planeou usar combustível russo para colocar o reactor em funcionamento até 2028. Esse prazo já foi empurrado para 2030-2031, e ainda assim depende de uma cadeia de abastecimento que não existe.
O Departamento de Energia dos EUA reconheceu o problema e começou a criar um banco de combustível HALEU, mas isso ainda está nos estágios iniciais. Sem combustível, não há reactor — e sem um reactor, não há prova de conceito.
A ironia de fundo
Aqui está o paradoxo central da energia nuclear avançada: a TerraPower foi escolhida para ser o rosto da "volta do nuclear" porque tem dinheiro, talento e a marca Gates por trás. Mas o problema da energia nuclear não é falta de inovação tecnológica — é construção.
O reactor Vogtle, na Geórgia, é o exemplo mais recente. Construído pela Westinghouse, atrasou-se sete anos e custou o dobro do orçamentado. Quando finalmente entrou em funcionamento em 2023, foi a primeira central nuclear construída nos EUA em mais de 30 anos.
Empresas como a Blue Energy (MIT startup) estão a tentar resolver exatamente esse problema — prefabricação em estaleiros navais, montagem modular, financiamento como projectos de energia eólica. O CEO Jake Jurewicz é categorico: "O problema nuclear é um problema de construção". Mas mesmo a Blue Energy, com a sua abordagem radicalmente diferente, projecta três anos para construir uma instalação que já opera com gás natural.
A TerraPower, com o seu reactor de sódio líquido e armazenamento de sal fundido, é tecnologia de vanguarda. Mas a tecnologia não vence atrasos de décadas nem a falta de uma cadeia de abastecimento de combustível. E o Wyoming não vai esperar para sempre.
A pergunta que fica: se o maior nome da energia nuclear avançada não consegue construir o seu primeiro reactor, quem consegue?
Fontes: Nuclear News (ANS), Nuclear News (ANS), Industrial Equipment News
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