Funcionários do TikTok alertaram sobre riscos à segurança infantil, mas executivos ignoraram
Registros judiciais anteriormente não divulgados revelam um padrão sistemático de funcionários que alertaram sobre exploração infantil na plataforma e foram rechaçados pela liderança do TikTok. Os depoimentos em tribunal, arquivados em março de 2026, oferecem um retrato sombrio de como uma das maiores redes sociais do mundo lidou — ou não lidou — com os riscos que seus próprios funcionários identificaram.
O que os depoimentos revelam
De acordo com depoimentos de funcionários arquivados em processo judicial federal nos Estados Unidos, Reagen Maher, que ocupou cargos sênior em segurança e investigações do TikTok entre 2018 e 2024, descreveu uma "cruzada" de vários meses para elevar questões de segurança para os executivos mais altos da empresa. Em uma mensagem interna de chat, lida durante o depoimento, Maher escreveu: "Tenho lutado para resolver isso há meses com pessoas que não acham que os danos são graves o suficiente".
Um relatório de investigação interna encontrou 112.000 vídeos de TikTok Live com crianças entre 13 e 15 anos apenas em janeiro de 2022. O mesmo relatório identificou riscos incluindo predadores adultos fazendo grooming de crianças e a criação de material de abuso sexual infantil, além de encontrar que o TikTok recebeu "receita significativa" de presentes enviados para lives que violavam as regras da plataforma.
Outro depoimento de Eric Han, chefe de segurança do TikTok de abril de 2019 a junho de 2023, detalhou conversas internas sobre "rabbit holes" — o termo da empresa para quando o algoritmo fica preso mostrando repetidamente o mesmo tipo de conteúdo ao usuário — que frequentemente levavam a conteúdo prejudicial para menores.
A questão dos presentes virtuais como moeda de exploração
O ponto mais alarmante dos depoimentos foi a questão dos presentes virtuais. Maher respondeu durante o depoimento a perguntas sobre uma matéria de 2022 da Forbes que reportou que menores de idade estavam se despidindo nas lives do TikTok, às vezes em troca de moeda digital, que pode ser convertida em dinheiro através de plataformas de pagamento ou transferência bancária.
Maher afirmou que a empresa já estava ciente da exploração sexual de menores na plataforma antes mesmo da matéria da Forbes ser publicada em abril de 2022.
"Se um adulto paga uma criança, através de presentes virtuais, por atos sexuais em uma live, isso é pagamento pela exploração sexual de uma criança. O presente é o pagamento", disse Silvija Krupena, diretora da Unidade de Inteligência Financeira da RedCompass Labs, consultoria baseada no Reino Unido, ao NPR. "Remova a linguagem de presentes, moedas e diamantes, e a alegação fica clara: um adulto pagou. Uma criança foi explorada. A plataforma lucrou com isso."
Loopholes de idade e evitação de supervisão
Os registros judiciais também revelaram que funcionários flaggaram que usuários menores de 18 anos usavam brechas para contornar conteúdo restrito por idade. Um loophole específico permitia que crianças acessassem a versão 18+ do TikTok se se inscrevessem via Google, Facebook ou Instagram.
Além disso, o TikTok se absteve de realizar pesquisas para avaliar a idade de seus usuários porque estava preocupado em ter que entregar os resultados à Comissão Federal de Comércio (FTC), de acordo com os documentos. Isso levantou questões sobre se a empresa estava deliberadamente evitando obter evidências internas de uso por menores.
A própria empresa também bloqueou pais e responsáveis de revisar a atividade dos filhos na plataforma, apesar dos alertas dos funcionários sobre o risco de exploração sexual e conteúdo de suicídio.
O silêncio da empresa e as implicações legais
O TikTok não respondeu às perguntas do NPR sobre seus protocolos anti-lavagem de dinheiro, incluindo se apresentou relatórios de atividade suspeita ao FinCEN, a unidade do Departamento do Tesouro dos EUA responsável pelo combate à lavagem de dinheiro, relacionada às receitas recebidas de vídeos do TikTok Live contendo material ilegal.
A empresa também recusou fornecer declaração sobre as questões levantadas nos documentos judiciais, embora tenha direcionado o NPR para políticas de segurança que já havia publicado em seu site.
A lei federal dos EUA pode impor responsabilidade criminal a uma empresa que se beneficia conscientemente da participação em empreendimentos de tráfico sexual infantil, segundo Krupena. Se o sistema de presentes se qualificar como transmissão de dinheiro regulamentada, as obrigações anti-lavagem de dinheiro podem se aplicar.
O conhecimento é fundamental, especialmente ao avaliar responsabilidade criminal potencial, o que explica por que os alertas aos executivos são tão importantes. Se a empresa sabia e não agiu, a defesa de "ignorância" torna-se muito mais difícil.
O contexto da litigância mais ampla
Esses depoimentos se inserem em um contexto mais amplo de litigância multiestadual iniciada em 2022, que coordena centenas de processos contra plataformas de redes sociais, incluindo Meta, Google/YouTube, Snap e TikTok, alegando que essas plataformas são projetadas para ser prejudiciais a usuários menores de 18 anos.
Em um julgamento emblemático em Los Angeles no início de 2026, um júri determinou que Meta e YouTube projetaram suas plataformas para causar danos à saúde mental de adolescentes, com a Meta sendo responsabilizada por bilhões de dólares em danos. O TikTok ainda não teve caso semelhante levado a júri, mas os depoimentos agora publicados adicionam um novo capítulo à narrativa.
O TikTok já fechou vários casos na litigância multiestadual antes que chegassem ao julgamento, incluindo o caso de Los Angeles. Mas os depoimentos revelados pelo NPR não foram submetidos como evidência em julgamento — pois os casos contra o TikTok ainda não foram julgados por um júri.
Por que isso importa
O que os documentos revelam não é apenas sobre falhas de moderação de conteúdo, mas sobre uma falha estrutural de governança corporativa: funcionários que identificaram riscos reais foram sistematicamente ignorados por uma liderança que priorizou o crescimento em relação à segurança.
Isso tem implicações diretas para a transparência algorítmica, um tema cada vez mais relevante no debate sobre regulação de IA e redes sociais nos Estados Unidos. Se a empresa sabia dos riscos e não agiu, a questão não é apenas ética, mas potencialmente legal — especialmente considerando que o próprio TikTok está sendo reestruturado sob um acordo que envolve Oracle, Trump e Silver Lake Partners, reduzindo o controle da ByteDance chinesa.
A pergunta que fica é: se funcionárias como Reagen Maher tivessem sido ouvidas em 2022, quantos milhões de vídeos de menores em conteúdo sexual nunca teriam sido publicados — e quantas crianças teriam sido protegidas antes de serem exploradas?
Fontes: NPR, The Verge, Forbes
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