O governo Trump chegou a quase US$ 4 bilhões em acordos para cancelar projetos de energia eólica offshore. O mais recente é um pagamento de US$ 1,2 bilhão à alemã RWE, que concordou em abrir mão de três arrendamentos para parques eólicos que seriam construídos na costa da Califórnia, da Louisiana e de Nova York. É o quinto acordo desse tipo firmado pela administração, num esforço declarado para redirecionar o setor energético para os combustíveis fósseis.
Os termos do acordo com a RWE são reveladores. Em vez de investir em energia limpa, a empresa alemã vai usar US$ 900 milhões para comprar uma participação num terminal de exportação de gás natural liquefeito (GNL) na Louisiana. Os US$ 300 milhões restantes serão destinados à compra de turbinas a gás para alimentar 15 usinas de pico ao redor do país. O parque eólico de Nova York, sozinho, teria capacidade de mais de 3 gigawatts — energia suficiente para abastecer centenas de milhares de lares.
A ironia econômica é difícil de ignorar. O governo está pagando bilhões de dólares do dinheiro dos contribuintes para impedir a construção de infraestrutura de energia renovável, enquanto promove investimentos em combustíveis fósseis. Analistas apontam que, além do custo fiscal direto, há o custo de oportunidade: a energia eólica offshore que deixou de ser construída representa décadas de geração limpa perdida, num momento em que muitos estados, especialmente na costa leste, dependem dessa fonte para cumprir metas climáticas e de confiabilidade da rede.
O impacto vai além do bolso do contribuinte. O sinal para o mercado de energia é claro e duradouro: desenvolver eólica offshore nos EUA é arriscado do ponto de vista político, e qualquer empresa pode ser obrigada a abandonar bilhões em investimentos com pouca ou nenhuma previsibilidade regulatória. Isso afugenta capital, encarece futuros projetos e reforça a dependência de combustíveis fósseis justamente quando a eletrificação de veículos e edifícios aumenta a demanda por energia. A incerteza, mais do que o custo direto, pode ser o legado mais caro dessa política.
Estados como Nova York, aliás, já reagem na justiça, liderando ações contra os cancelamentos de arrendamentos. A pergunta que fica é quem, no fim, pagará a conta mais alta: o contribuinte federal que financia os acordos, os consumidores de energia que perdem geração limpa barata, ou as próprias empresas que, ao aceitar o dinheiro, abandonam um mercado que pode se tornar estratégico na próxima década. Quando a conta de cancelamento se aproxima de US$ 4 bilhões, fica evidente que desfazer energia limpa é caro — e que o preço de reconstruí-la depois pode ser muito maior.
O efeito cascata não se limita ao setor elétrico. A desistência de projetos de eólica offshore afeta também a cadeia industrial americana — estaleiros, fabricantes de cabos, empresas de logística e portos que se preparavam para um novo mercado. Cada leilão cancelado representa empregos que não serão criados e know-how que se perde para concorrentes internacionais, especialmente europeus e asiáticos, que seguem avançando nessa tecnologia. No longo prazo, a decisão de hoje pode custar aos Estados Unidos a posição de liderança num setor que ainda vai crescer por décadas em escala global.
Fontes: TechCrunch, AP News, BBC
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