A Instacart, plataforma líder em entregas de supermercado nos Estados Unidos, está avaliando a possibilidade de vender a empresa a um concorrente maior, segundo reportou o The Information nesta sexta-feira (23), citando pessoas familiarizadas com o assunto. A empresa já teria realizado conversas preliminares tanto com a DoorDash quanto com a Uber — embora a última tenha encerrado as discussões, segundo um porta-voz.
A notícia provocou um movimento rápido nos mercados: as ações da Instacart fecharam quase 9% mais altas na sexta-feira, com valorização adicional de cerca de 1% no pregão pós-horário. Em contraste, as ações da Uber recuaram quase 3%, enquanto a DoorDash despencou mais de 4%, num padrão clássico de M&A em que o alvo sobe e os compradores em potencial caem, antecipando o prêmio que terão de pagar.
Avaliada em aproximadamente 12 bilhões de dólares, a Instacart contratou um banco de investimentos para ajudá-la a avaliar suas opções estratégicas. De acordo com o The Information, um prêmio de aquisição típico de 30% a 40% sobre a valuation atual situaria o preço de venda entre 16 e 17 bilhões de dólares. Bloomberg destacou que se tratam de discussões iniciais e que não há garantia de que se traduzam num acordo final.
A fundação da empresa remonta a 2012, quando o CEO Apoorva Mehta, então estudante de Engenharia Mecânica na Universidade de Stanford, concebeu um aplicativo simples que transformava qualquer funcionário de supermercado num entregador. Em menos de uma década, a Instacart evoluiu de um side project universitário para uma das plataformas mais importantes de comércio eletrônico de alimentos nos EUA, processando bilhões de dólares em transações anuais e mantendo relações com mais de 600 redes de supermercados, incluindo grandes nomes como Kroger, Albertsons e Morrisons.
O momento da venda não é casual. Desde sua listagem na Bolsa de Valores de Nova Iorque em dezembro de 2023, a ação da Instacart acumulou valorização de cerca de 25%, mas o mercado de entregas online de alimentos continua a pressionar as margens de todas as empresas envolvidas. A DoorDash, por exemplo, só atingiu lucratividade operacional em 2025, depois de anos de pesados investimentos em logística e subsídios. A Uber, que já tentou o grocery delivery através do serviço Shipt (adquirido pela Target e descontinuado em 2024), tem demonstrado maior interesse em expandir suas operações de entrega em parceria com varejistas existentes.
Um aspecto frequentemente ignorado pela cobertura principal é que a Instacart não é apenas um serviço de entrega — é também uma infraestrutura tecnológica que fornece software de marketplace para varejistas. O Instacart Platform permite que lojas de todo o mundo integrem catálogos online, gestão de inventário e ferramentas de publicidade em seu próprio site e aplicativos, criando uma camada B2B que rivaliza com Shopify para o setor alimentício. Essa dualidade — B2C e B2B simultaneamente — torna a empresa particularmente complexa de avaliar e pode explicar por que as opções estratégicas são tão amplamente exploradas.
O maior obstáculo à conclusão de um negócio é a regulação antitruste. Nos Estados Unidos, qualquer aquisição que consolide significativamente o mercado de entregas de alimentos provavelmente seria submetida a um escrutínio rigoroso da FTC e do Departamento de Justiça. A DoorDash já detém cerca de 70% do mercado de entregas de refeições nos EUA, e a incorporação das operações de grocery da Instacart poderia despertar preocupações semelhantes às que bloquearam a proposta de aquisição da TikTok pela ByteDance — não por ideologia, mas por concentração de mercado.
O que a venda significaria para os consumidores depende inteiramente do comprador. Se a DoorDash adquirir a Instacart, o impacto imediato seria uma oferta de grocery mais robusta, possivelmente com integração entre o aplicativo de restaurantes e o de supermercados — algo que muitos consumidores pedem há anos. A Uber, por outro lado, poderia usar as relações da Instacart com varejistas para fortalecer sua própria operação de entrega, num movimento que transformaria a empresa de um aplicativo de mobilidade para uma plataforma de logística completa.
A pergunta que fica é se a consolidação do grocery delivery nos EUA está chegando ao seu ponto final — ou se esta é apenas a primeira de uma série de fusões que redefinirão o futuro da distribuição de alimentos em um mundo onde a entrega em menos de 30 minutos deixou de ser diferencial para se tornar expectativa do consumidor.
Fontes: The Information, Bloomberg, Reuters
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